• Chamada para o Dossiê “Técnica, poder e transformação”

    Published February 15, 2018

    Chamada para o Dossiê “Técnica, poder e transformação” (a sair em Vibrant, vol. 16 nº 2, 08/2019).

    Editores do dossiê: Fabio Mura (UFPB) – famiomura@64@gmail.com e Carlos Sautchuk (UnB) – carlos.sautchuk@gmail.com.

    A antropologia sempre dedicou atenção às técnicas, seja como aspecto ou contraparte importante em estudos sobre magia, linguagem e arte ou como forma material da cultura – expressão da cosmologia e resultado da adaptação ao ambiente. Entretanto, a formulação mais fecunda e programática sobre a técnica na antropologia parece emergir do pensamento de Marcel Mauss. Este não pensa a técnica como um dos objetos da disciplina, mas como fenômeno crucial da vida, sobretudo humana – definindo-a como ato tradicional eficaz, com efeito mecânico, físico ou químico. Mauss considerou o estudo da técnica central para a antropologia, seja para a compreensão da morfologia social, do tempo, do espaço, do conhecimento, dos gestos e movimentos corporais e também dos objetos, instrumentos e máquinas.

    Sob influência direta de Mauss ou não, a antropologia da técnica se caracteriza por uma postura crítica sobre dicotomias como sujeito/objeto, técnica tradicional/tecnologia moderna ou cosmologia/prática, evitando assim perspectivas com viés antropocêntrico, tanto as baseadas na linguagem quanto as centradas em explicações utilitaristas ou deterministas. Apesar de sua origem diversa, este tipo de abordagem na antropologia é considerado muitas vezes na vizinhança de outras tendências que criticam a oposição entre natureza e cultura, como os estudos de ciência e tecnologia (STS), a etnografia multi-espécies ou o interesse mais geral pelos não humanos. Note-se, contudo, que, além da busca por uma abordagem empírica interdisciplinar, a abordagem da técnica está voltada para a etnografia de processos concretos de mediação, em diferentes níveis e escalas. Para tanto, aciona conceitos tais como gesto, escolha, sistema, fato e tendência técnica; ou ainda comportamento operatório, cadeia operatória, habilidade, percepção etc.

    Fundamentalmente, esta postura etnográfica busca acessar a dinâmica das transformações, o que permite discutir sob outro ponto de vista relações de poder muito tratadas pela antropologia brasileira. Afinal, as técnicas são maneiras de instituir ou de mobilizar configurações díspares de recursos, energias, ritmos e materiais – manifestando também competências, intencionalidades e individuações humanas e não humanas, singulares ou coletivas. As relações de poder se mostram, por exemplo, quando se encontram regimes técnicos baseados em modalidades distintas de relação com territórios, corpos ou objetos, expressando tradições de conhecimento ou modos de existência diferentes e muitas vezes antagônicos. Tais relações podem resultar em práticas dominadoras e violentas, quer através de expropriações, interditos e imposições ou até por meio da chamada transferência de tecnologia. Mas geram também resistências ou resiliências, resultando em transformações, em diversos níveis e direções, permitindo reconfigurações, alianças circunstanciais, implicações parciais, agenciamento ou neutralização de outras formas de ser ou de agir.

    Neste marco geral, o dossiê pretende reunir artigos que, a partir de variadas perspectivas teórico-metodológicas, tomam a técnica como tema ou instrumento heurístico, sempre com base em investimento empírico. Assim, os autores são chamados a tratar do modo de implementação ou do desenrolar de situações de transformação e poder, não apenas por meio de suas expressões discursivas, simbólicas ou administrativas, mas com o foco etnográfico no modo de relação e interação com seres, coisas, objetos, artefatos ou ambientes.

    Data final de submissão de artigos pelo sistema SciELO:

    15 de agosto de 2018.